COMPARTILHO, LOGO EXISTO?


Por Fernanda Timerman, nutricionista


Quem não se sentiu um pouco desconfortável assistindo esse vídeo? 

Que nós vivemos na era da tecnologia e da imagem, não é novidade! Mas será que ao invés de usarmos essas ferramentas como um complemento do dia-a-dia, estamos virando escravos? Por que estamos cada vez mais vorazes por compartilhar o que fazemos, comemos (ou resistimos), bebemos, como malhamos, onde vamos, com quem vamos, o que compramos?

Interessante a sequência de coisas que vi e li nessa última semana que estão me fazendo refletir sobre sensações que não só eu, como a maioria das pessoas que conheço relatam: angústia, falta de sentido, falta de identidade, sentimento de vazio... 

Na busca dessas reflexões, fui assistir uma palestra com um tema inusitado: A Cabalá do Consumo - Materialistas Anônimos. Não sou conhecedora da Cabalá, mas o tema me instigou. Sai de lá com muitos aspectos para pensar durante a semana**:

"O estilo e os valores da vida moderna nos levam a crer que o prazer e o consumo estão associados à felicidade e ao objetivo maior da vida. Não é incomum, porém, que com o passar do tempo, essa atitude nos conduza a carências de sentido e desesperança. Gradativamente reconhecemos que vivemos num círculo vicioso de prazer e frustração, e ansiamos por vivências mais significativas e duradouras."

"Quanto mais exercitamos o viver encarnados no corpo, mais absolutos nos parecem esses fundamentos. No entanto, as sensações e as carências supridas não são um fim em si mesmo, e sim o meio para preservar a vida."

"Por "identidade" entenda-se a alegria inata de reconhecer-se como um indivíduo, independente e singular. Alegria essa que não se preserva pelo preenchimento de coisas ou prazer, mas pela funcionalidade e utilidade que a identidade nos confere."

"Qualquer intensidade exacerbada é uma violência e todos já experimentamos constrangimentos por conta de excessos. Excesso de amor ou desamor, de cuidado ou descuidado, de uso ou desuso, de abundância ou escassez, enfim, desequilíbrios que encontram uma maneira de se manifestar em padrões de comportamento. Todo vício é um abuso, que tem raiz numa matriz de abusos. E o seu padrão é similar: abusamos para poder preencher um vazio que não temos como desfazer. Em vez de convivermos com este vazio, precisamos preenchê-lo com o que é "material", de forma abusiva."

No meu consultório, uma paciente me mostrou a foto de uma webcelebrity (famosa por postar diariamente fotos e dicas de alimentação e atividade física e ter quase 30 mil seguidores) como referência de "corpo" que ela queria que EU ajudasse ela a chegar. Eu disse que não me sentia confortável nessa posição de "facilitadora" de uma provável insatisfação. 

Tudo bem as pessoas terem referências e exemplos, mas quando estes vem de pessoas que se dedicam quase que integralmente para uma finalidade, como nesse caso, e que não faz parte da realidade da pessoa, acho que a chance de se frustar é imensa. Internamente fiquei juntando as pecinhas do quebra cabeça: aquela sensação comum que as pessoas estão experimentando de angústia, falta de sentido, vazio talvez seja a perda da "funcionalidade e utilidade que a identidade nos confere". Estamos querendo ser o que não somos, ter o que não temos, parecer quem nem existe de verdade (pois as imagens vem retocadas com filtros ou photoshop). Não alcançar o que queremos é muito bem vindo, pois a insatisfação nos leva ao consumo e isso gera muito $$$. Então entramos no ciclo violento de intensidade exacerbada de abundância ou escassez, para preencher nosso vazio. 

Utilizar mídias sociais para divulgar o trabalho, uma conquista, um lugar lindo, uma comida deliciosa, uma dica de saúde etc é super bacana e a questão não é ir contra essas ferramentas, mas pensar em como não deixar o mundo virtual ser mais importante do que o real!

Compartilho, logo existo? Ou deixo de existir?



** Trechos restirados do site: http://www.materialistasanonimos.org/motiva.htm

Autor Redação Genta

Equipe de Redação do Genta

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