Paleo o que, homem das cavernas?

Por Marle Alvarenga, nutricionista



Meu foco de indignação do momento (na área alimentar) é a dieta paleolítica ou paleo diet. Não ouviu falar? Tem a premissa estúpida de comer aquilo que nossos ancestrais ?caçador-coletores? da era paleolítica ? ou Idade da Pedra ? comiam.

Uma proposta inserida na paleo diet é também o ?jejum intermitente?, como colocado numa matéria daquelas que só alardeiam a imbecilidade publicada na Vogue recentemente, incluindo a pérola de um endocrinologista que diz que ?acelera o emagrecimento?. A cólera também! E acelera mais rápido. Se perder numa floresta e ficar andando a esmo também ?acelera o emagrecimento?!! Poupe-me.

Definitivamente: isto é apenas uma reedição das dietas de baixo carboidrato, que já se provaram ineficientes e que já perderam público. Daí vem um nome diferente, livros diferentes, e crenças disfuncionais novas para vender antigas promessas ao público faminto por milagres e invencionices.

Surpreende ainda que alguns artigos científicos se debrucem a discutir os possíveis benefícios da ?dieta paleolítica?. Embora se acredite que nosso genoma tenha mudado pouco desde os tempos ancestrais (e nossa dieta muito!), e que estamos comendo ultraprocessados demais, fibras de menos, tendo impacto negativo de alguns processos de produção de alimento em massa, etc., dizer que a dieta ?pré-agricultura? possa ser um paradigma é demais.Como alimentar toda população do mundo sem a agricultura moderna?

O homem das cavernas ? segundo a arqueologia da alimentação ? comia também carniça, larvas e fetos de animais. Isto está sendo proposto também e considerado nos estudos sobre a ?saúde? e ?nutrição? do homem ancestral?? Vamos também voltar aos hábitos de ?higiene e saneamento? do homem das cavernas?

E os praticantes da dieta paleolítica estariam também dispostos a abrir mão do que temos hoje e que não existia na época das cavernas? Carro, energia elétrica, televisão, celular, computador, etc.?

Realmente! É mais honesto ser Amish people!!!


É óbvio que o mundo ?moderno? tem influência em nossa saúde e dieta! O humano moderno vive numa sociedade ?dependente de computador, privada de sono, fisicamente inativa, cronicamente estressada e com abundância de comida? ? e comida processada demais (Chaput et al., 2012). Mas então, vamos lutar por uma produção de alimento mais racional, por políticas alimentares que visem acesso a alimentos mais saudáveis, pela valorização e preservação do consumo de alimentos frescos, pelo contato direto com a comida, pelas culinárias regionais, pelos pequenos produtores, enfim...

Mas daí, querer defender a dieta do homem das cavernas?????

Se os praticantes e defensores passarem também a andar de carroça, comer apenas o que plantam, vestir apenas o que costuram, abandonar a energia elétrica, e todas as tecnologias (como os Amish), merecerão parte do meu respeito.

Para complementar:

Nutr Rev. 2013 Aug;71(8):501-10. doi: 10.1111/nure.12039. Epub 2013 Jun 25.

Beyond the Paleolithic prescription: incorporating diversity and flexibility in the study of human diet evolution.

e

Department of Anthropology, Georgia State University, Atlanta, Georgia, USA.

Abstract

Evolutionary paradigms of human health and nutrition center on the evolutionary discordance or "mismatch" model in which human bodies, reflecting adaptations established in the Paleolithic era, are ill-suited to modern industrialized diets, resulting in rapidly increasing rates of chronic metabolic disease. Though this model remains useful, its utility in explaining the evolution of human dietary tendencies is limited. The assumption that human diets are mismatched to the evolved biology of humans implies that the human diet is instinctual or genetically determined and rooted in the Paleolithic era. This review looks at current research indicating that human eating habits are learned primarily through behavioral, social, and physiological mechanisms that start in utero and extend throughout the life course. Adaptations that appear to be strongly genetic likely reflect Neolithic, rather than Paleolithic, adaptations and are significantly influenced by human niche-constructing behavior. Several examples are used to conclude that incorporating a broader understanding of both the evolved mechanisms by which humans learn and imprint eating habits and the reciprocal effects of those habits on physiology would provide useful tools for structuring more lasting nutrition interventions.

Outras Fontes:

Leonard WR. Alimentos e Evolução Humana. In: Scientific American Brasil. Especial Evolução, nº. 2. 2004. Págs. 80-89.

Eaton SB, Eaton SB III. Paleolithic vs. modern diets ? selected pathophysiological implications. Eur J Nutr 39, 67-70, 2000.

Eaton SB, Eaton SB III & Konner MJ (1997): Paleolithic nutrition revisited: A twelve-year retrospective on its nature and implications. Eur. J. Clin. Nut. 51, 207-216.

Baschetti R. Paleolithic diet. [Comments on: Eaton SB, Eaton SB III & Konner MJ (1997): Paleolithic nutrition revisited: A twelve-year retrospective on its nature and implications. Eur. J. Clin. Nut. 51, 207-216.]

Chaput JP, Doucet E, Tremblay A. Obesity: a disease or a biological adaptation? An update. Obesity Reviews 2012; 1-11.


Autor Redação Genta

Equipe de Redação do Genta

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