Peso ideal

Por Alessandra Fabbri, nutricionista


Campanha Dove Real Beleza lançada pela marca em 2004

O IMC (índice de massa corporal) é um conhecido indicador do estado nutricional que classifica os indivíduos em desnutridos (com baixo peso), eutróficos (com peso ?normal?), sobrepesos e obesos. Tem um peso ideal/saudável aquela pessoa que se encontra dentro da faixa de eutrofia. Claro, também devemos levar em consideração outros aspectos para determinar o peso ideal de uma pessoa como: a idade, o sexo, seus valores atuais de peso e altura, o histórico de peso (ou seja, as alterações de peso que ela já teve ao longo de sua vida), as condições de saúde, os limites genéticos, entre outros.

Muitas pessoas se esquecem destes importantes aspectos quando o assunto é peso corporal e acreditam que seu corpo pode ser moldado, programado e forçado a pesar um determinado peso. Geralmente, estas pessoas costumam colocar uma grande expectativa nisso, pensando coisas do tipo: quando chegar ao peso ideal vou vestir/comprar aquela roupa, ou vou fazer aquela sonhada viagem e serei muito mais feliz. Será mesmo?

Os estudos têm mostrado que não. Os índices apontam que mesmo as pessoas que já possuem um peso considerado ideal não estão satisfeitas com seu corpo e querem ser ainda mais magras. Um exemplo disso foi o estudo realizado em 37 universidades brasileiras com 2.402 estudantes, ele observou que 64,4% destas jovens desejavam ser mais magras, ainda que 47,8% delas mantivessem um peso considerado adequado/eutrófico(1). Outro estudo recente realizado na Espanha com 55 universitárias observou que 85,5% das participantes estavam insatisfeitas com seu peso, sendo que todas elas tinham o peso classificado na faixa da eutrofia(2). Outro estudo realizado na Suíça com 18.156 participantes observou que 36,7% das pessoas relataram estar insatisfeitas com seu peso, sendo que metade dos homens (50,1%) e mais da metade das mulheres (55,7%) relataram querer perder algum peso(3). Em Portugal, outro estudo verificou a insatisfação corporal e a presença de sintomas depressivos em 1.868 crianças de 13 anos, observando que 41,4% das meninas e 33,5% dos meninos gostariam de ser mais magros. A insatisfação corporal foi associada com o aumento dos sintomas depressivos nestas crianças, e a associação entre insatisfação corporal e os sintomas depressivos foi maior entre as que tinham peso eutrófico(4). Resumindo, a insatisfação corporal parece ser um acontecimento mundial, e parece atingir também crianças e adolescentes. É fácil perceber isso no nosso dia-a-dia. Quantas pessoas você conhece que têm um peso considerado ?ideal? e que são insatisfeitas com seu próprio corpo?

As atuais influências socioculturais também têm sua contribuição na perpetuação dessa insatisfação. Muitas vezes, a pressão para atingir um corpo ideal pode induzir o desejo exagerado de um corpo magro, uma vez que estes padrões são inatingíveis para a maioria da população(5).

Como estamos vendo, ter um peso ideal não é sinônimo de felicidade e nem de saúde; pelo contrário, a insatisfação corporal tem sido associada a sintomas depressivos, estresse, baixa autoestima, restrição alimentar e evitação da prática de atividade física (6,7,8), além de facilitar o desenvolvimento de distúrbios relacionados à imagem corporal e aos transtornos alimentares(9).

Então como eu faço para obter um peso saudável? Na verdade, ter um peso ideal/saudável significa manter um peso adequado para aquela pessoa, levando em consideração todos os aspectos importantes citados anteriormente, por meio da manutenção de um estilo de vida saudável (e não somente através dos cálculos). E ter uma vida saudável inclui: ter uma alimentação equilibrada e prazerosa, sem restrições, com a prática saudável e regular de atividade física igualmente prazerosa.

Estes são os mesmos princípios utilizados pelo movimento "Health at Every Size" (HAES), que significaria em português algo parecido com ?Saúde em Todos os Tamanhos?. Este movimento defende o foco no comer intuitivo (já falei sobre ele em outro post aqui no blog) e na atividade física prazerosa, no lugar do foco tradicional na dieta e na perda de peso. Os princípios do HAES são:

1. Autoaceitação: Afirmação e reforço do valor da beleza humana, independentemente das diferenças de peso, tamanho e forma física;
2. Atividade Física: Aplicação do movimento baseado no prazer, na diversão e na melhora da qualidade de vida;
3. Normalização do Comer: Descartar as regras externamente impostas, as dietas rígidas e alcançar uma relação mais pacífica com os alimentos, reaprender a comer em resposta à fome e saciedade fisiológicas.

Para saber mais sobre o HAES: http://www.haescommunity.org/


Moral da história: aceite o seu corpo, aceite a diversidade. Faça aquilo que você gosta. Não deixe de fazer nada, como comprar roupas ou viajar, por causa do seu peso ou forma corporal e seja feliz. Como diria Fernanda Mello, ?no meio do caos que anda o mundo, aceitar é ser feliz!?

Referências:
1. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenco BH, Sato PS e Scagliusi FB. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010; 59(1):44-51.
2. Hernández N, Alves D, Arroyo M, Basabe N. Del miedo a la obesidad a la obsesión por la delgadez; actitudes y dieta. Nutr Hosp. 2012; 27(4):1148-1155.
3. Forrester-Knauss C, Zemp Stutz E. Gender differences in disordered eating and weight dissatisfaction in Swiss adults: which factors matter? BMC Public Health. 2012; 20;12:809
4. Almeida S,Severo M,Araújo J,Lopes C,Ramos E. Body image and depressive symptoms in 13-year-old adolescents. J Paediatr Child Health.2012; 48(10).
5. Neighbors LA, Sobal J. Prevalence and magnitude of body weight and shape dissatisfaction among university students. Eat Behav. 2007;8(4):429-39.
6. Anton SD, Perri MG, Riley JR. Discrepancy between actual and ideal images: impact on eating and exercise behaviors. Eat Behav. 2000;1(2):153-60.
7. Johnson F, Wardle J. Dietary restraint, body dissatisfaction, and psychological distress: a prospective analysis. J Abnorm Psychol. 2005;114(1):119-25.
8. Markey CN, Markey PM. Relations between body image and dieting behaviors: an examination of gender differences. Sex Roles. 2005;53(7/8):519-30.
9. Cheung YT, Lee AM, Ho SY, Li ET, Lam TH, Fan SY, Yip PS. Who wants a slimmer body? The relationship between body weight status, education level and body shape dissatisfaction among young adults in Hong Kong. BMC Public Health. 2011; 11:835.

Autor Redação Genta

Equipe de Redação do Genta

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