O feminismo e a nutrição


Por Maria Luiza Petty, nutricionista


O feminismo é um movimento bastante antigo, mas que recentemente ganhou força e foi um dos assuntos mais comentados no ano passado.  Não tenho certeza se esta é a definição mais correta, mas em uma busca rápida no Google, temos que:


Feminismo um conjunto de movimentos políticossociaisideologias e filosofias que têm como objetivo comum: direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero.

E o que esse assunto tem a ver com a nutrição, afinal? Na minha opinião, tudo! Para ilustrar meus argumentos, vou contar dois casos que vivi recentemente.


A primeira história aconteceu em uma viagem à praia com um casal de amigos, Débora e Paulo. Tanto Débora quanto Paulo têm sobrepeso e estão fora do padrão de beleza de capa de revista (aliás, quem não está?!). Enquanto Débora não consegue ficar de biquini e mal pode se divertir com tanta roupa em um calor de mais de 30 graus, Paulo não  demonstra qualquer constrangimento e sua barriga avantajada não o impede de realizar qualquer coisa que deseje. Conversando com Débora, descubro que nos últimos 15 anos minha amiga já fez mais de dez tipos de dietas e já foi em mais de três nutricionistas. Conta que hoje tem resistência em procurar outro profissional porque sabe que vai gastar muito dinheiro com os alimentos que elas recomendam. Minha amiga também me confessa que sente-se muito mal com o seu peso e que não tem um dia sequer que não acorde e pense que precisa perder peso. Enquanto isso, Paulo nunca foi a um nutricionista e nunca fez uma dieta sequer. Hum, interessante....


A segunda história aconteceu em uma clínica de estética. Fui ao local fazer minha sobrancelha e ao declarar minha profissão, no momento do cadastro, sou convidada a conhecer a colega que trabalha no local. A nutricionista da clínica me conta que seu principal foco no verão é prescrever dieta para reduzir uns "quilinhos"? e acabar com a celulite. Neste momento, ao ouvir o que ela dissera, me pergunto: "será que faltei à aula de dietoterapia para celulite? Tendo eu estudado em uma das melhores faculdades de nutrição do Brasil, será que então eu faltei a esta aula?!" É claro que não. Nem faltei, nem a faculdade deixou de ensinar. Nenhuma dieta é capaz de acabar com a celulite. Mas a nutricionista da clínica me falou aquilo como se realmente acreditasse no "poder" de sua dieta. Hum, interessante....


Se o feminismo é a busca de iguldades entre homens e mulheres e a libertação de padrões opressores, o que os nutricionistas têm feito para isso? Logo esta profissão, tão feminina.


Eu faço atendimentos no consultório há quase uma década e posso chutar com alguma propriedade que 70% dos clientes que me procuram é composto de mulheres que querem perder alguns quilinhos, mas que na realidade não têm necessidade de perder 1g e cuja alimentação é muito melhor do que a média nacional. Como profissional da saúde, portanto, nada tenho a fazer com estas mulheres, se não mostrá-las que elas estão bem. Mais do que isso, é justo com estas pessoas mostrar que além de estarem bem, elas devem sentir-se bem, pois seus desejos de perder alguns quilinhos é tão opressor quanto  a ideia de que a mulher não deve estudar, dirigir ou trabalhar. A insatisfação corporal, inclusive, pode fazer muito pior à saúde do que alguns percentuais de gordura a mais do que o recomendado.


Eu não tenho nada contra a estética e o desejo de uma mulher ficar mais bonita. Mas desde que isso não faça outra mulher gastar seu tempo e dinheiro com falsas promessas e nem alimente ainda mais sua insatisfação corporal - e por consequência, pessoal. Ajudar uma mulher a perder "alguns quilinhos" e sentir-se mais bonita pode parecer inofensivo, mas pode inclusive resultar em doenças, como os transtornos alimentares.


Então nutricionistas, vamos ser mais feministas pela saúde de nossas mulheres?   

Autor Luis Lemos

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