Qual o sabor da sua infância? O relevante papel das memórias alimentares


Fonte: Getty Images 


Por Juliana Bergamo Vega, nutricionista


Uma grande amiga e seus irmãos desde pequenos AMAM comer agrião. Sim, agrião!  Se deliciam com um pratão da folha amarga com o mesmo entusiasmo como quem come uma bela macarronada de domingo.  Por mais que eu goste da bendita folha, me chamava a atenção a felicidade que a família inteira sempre demonstrou, ao se deparar com a tal verdura. Mas como é possível crianças comerem verduras espontaneamente e felizes? Não somos nós seres humanos preparados biologicamente a rejeitar o amargo e aceitar os sabores mais adocicados? Teriam eles papilas gustativas diferenciadas, que causam uma sensação de prazer ao entrar em contato com o amargo da folha? Intrigada, resolvi investigar!


As preferências alimentares são um fenômeno complexo, em que fatores genéticos e ambientais interagem de forma dinâmica e única para cada indivíduo. Como nutricionista especialista em alimentação infantil e transtornos alimentares, depois de alguns anos atuando no apoio às famílias com histórias de vida e demandas tão diferentes, fica evidente que as experiências alimentares na infância, têm um lugar especial nessa teia.


O prazer ou desprazer das primeiras experiências sensoriais até a maneira como somos alimentados podem compor o tom da nossa relação com a alimentação ao longo da vida1,2. Isso porque os seres humanos fazem associações entre o sabor dos alimentos e as experiências que seguem à sua ingestão2. Estudos sobre comportamento dos pais em relação à alimentação dos filhos desaconselham a chantagear, recompensar, punir ou forçar crianças a comer2,3. Proporcionar experiências negativas com a comida não favorecem a aceitação alimentar futura e pode comprometer a relação do indivíduo com a comida.


Ao nos alimentarmos ingerimos não só os nutrientes, mas o seu significado. Somos seres biológicos, sociais e dependentes de afeto: atribuir sentido às coisas é condição da nossa existência. Por essa razão, não há como contar nossa própria história de vida sem lembrar de um prato preferido feito por alguém muito querido, uma sopa servida com amor e cuidado quando estávamos doentes ou um chocolate quente tomado em um dia frio e chuvoso que se assemelhasse a um abraço. Fico pensando quais são as memórias alimentares que estamos construindo hoje quando as famílias, ou por falta de tempo ou por práticas alimentares "saudáveis" ditadas por crenças disfuncionais sobre alimentação e corpo, não fazem mais refeições juntos ou se referem à comida com culpa e medo, deixando de proporcionar às crianças essas experiências prazerosas tão fundamentais.


Recentemente perguntei para minha amiga o que o sabor do agrião despertava em suas lembranças. Ela me disse que o agrião a fazia lembrar do domingo em família, quando passavam no clube. Depois de uma manhã divertidíssima, a mãe, para ganhar tempo, sabiamente servia uma travessa de salada enquanto preparava um delicioso almoço. A folha verde de amarga só tem sabor: mas a lembrança é doce, delicada e repleta de felicidade.


Quando fecho meus olhos e tento lembrar os sabores da minha infância sinto o aroma do bolinho de chuva polvilhado de açúcar e canela, acompanhado do cafezinho que perfumava a casa da minha avó. Com muito amor e simplicidade, ela me ensinou que a felicidade tem gosto e tem cheiro. E para você, qual é o sabor da sua infância? Ou melhor, qual a memória alimentar que tem ajudado a construir?


Referências bibliográficas


Birch LL , Doub AE. Learning to eat: birth to age 2 y. Am J Clin Nutr; 99(suppl):p 723S-8S, 2014.


Chatoor I. Quando seu filho não quer comer (ou come demais): o guia essencial para prevenir, identificar e tratar problemas alimentares em crianças pequenas. Barueri, SP: Manole, 2016.


Batsell Jr WR, Brown AS, Ansfield ME, Paschall GY. "You Will Eat All of That!": A retrospective analysis of forced consumption episodes. Appetite, Vol 38, Issue 3: p 211-21, 2002. 

Autor Ana Carolina

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