Um peixe fora d´água


Por Camilla Estima, nutricionista convidada


Trabalho com comportamento alimentar em meu consultório aqui no Rio de Janeiro, que é uma cidade muito preocupada com estética, fitness e magreza, e além de tratar de pacientes com transtornos alimentares o meu público é basicamente de mulheres na faixa etária dos 30 à 40 anos que me procuram sempre pelo mesmo motivo: não aguentam mais o modo operante de dietas, pressão social com o corpo, não tem paz na alimentação entre outros motivos. Em um dado ponto do tratamento chegamos a uma encruzilhada, onde quase todas trazem para mim a mesma questão: não me encaixo mais no meu grupo de amigas que só falam de dieta, nas conversas familiares gordofóbicas, não acho mais graça das piadinhas que rolam quando problematizando corpo e comida. Aquela sensação de se sentir como um peixe fora d´água, pois antes eram elas mesmas que defendiam e disseminavam esse discurso, agora se veem refém dele. E isso gera uma sensação de não pertencimento a esse meio, e parece que um curto circuito invade seus pensamentos.


Esse não pertencimento se faz por elas terem passado a desenvolver uma escuta mais ativa e um senso crítico mais apurado e começam a perceber que temas como dieta, corpo, emagrecimento, atividade física pra pagar o que comeu, alimentos milagrosos são onipresentes nas conversas de seus grupos sociais. Isso passa a incomodá-las e é exatamente pelo fato de não pertencerem à essas conversas elas se sentem sozinhas e isoladas. Inicialmente começa uma contra argumentação dos discursos que elas mesmas faziam parte e os reforçavam de forma positiva, onde querem tentar convencer os outros desses novos pensamentos mas posteriormente passam a deixar de lado esse convencimento. E se cansam.


O problema dessa espécie de isolamento social parece travá-las e se faz necessária toda uma conversa de apropriação do discurso pois a dúvida fica: estou avançando nesse processo de libertação desse discurso que só me adoece e sinto que o caminho é por ai e estou segura quando a isso ou como vou continuar me sentindo isolada no meu meio social? E quem quer se sentir isolada socialmente? Ninguém.


A orientação que sempre fazemos é: tudo em seu tempo! As pessoas vão se sensibilizar com esse discurso novo e que nada contra a maré aos poucos, acho que no mesmo processo que foi com elas mesmas, e assim essa corrente de novas ideias vai tomando força, devagar e passo a passo. Mas ela chega lá. E o maior presente para nós, profissionais que há tanto tempo trabalhamos com isso é ver essas mulheres com senso crítico cada vez maior, querendo sensibilizar os outros ao mesmo tempo que tentam se libertar das amarras desse discurso que só as apreende. E no fim, se sentem livres.


Autor Fernanda Timerman

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