Quando a prática de exercícios vira compulsão?



Por Paula Costa Teixeira, profissional de educação física

Já sabemos que praticar exercícios regularmente produz efeitos positivos na nossa saúde e bem-estar. Porém, o exercício pode ser prejudicial quando praticado de forma compulsiva.

A compulsão por exercício pode ser definida como uma relação de dependência em que o indivíduo se sente obrigado a se exercitar, comprometendo sua atividade diária, apresentando sintomas físicos e psicológicos de abstinência e culpa quando não pode se exercitar.

Há evidências que associam a dependência ao exercício com os transtornos alimentares (TA). Mas é importante ressaltar que isso não é uma regra. Alguns indivíduos com TA podem apresentar esse sintoma apenas pelo interesse em controlar o peso e/ou a composição corporal, caracterizando uma dependência secundária. A primária seria referente a uma prática com o único fim de se exercitar, portanto, deve ser excluído o diagnóstico de TA.

Infelizmente, esta dependência definida como secundária está cada vez mais comum na população devido ao aumento de alguns sintomas dos TA como insatisfação com o corpo, desejo exagerado de ?queimar as calorias?, emagrecer e mudar a aparência física.

Termos como obligatory e compulsive são utilizados nas pesquisas para caracterizar indivíduos que se exercitam demasiadamente e que são incapazes de controlar a necessidade pelo exercício, fazendo-o mesmo quando não estão se sentindo bem ou deixando de cumprir compromissos sociais. O termo ?excessivo? (também muito utilizado nas pesquisas sobre o assunto) conceitua um exagero, ou seja, algo que excede o limite, enquanto que o compulsivo remete a ideia de pressão que o indivíduo sofre por ser compelido a realizar tal ato. Esta pressão, por sua vez, aparece como algo interno ligado a aspectos psicológicos. Nesse sentido, a forma como o exercício é realizado tem tanta relevância quanto a quantidade de horas dedicada à atividade. Por isso, é importante associar a quantidade com informações sobre como e quando o indivíduo se utiliza do exercício, se é um comportamento compensatório e se prejudica sua vida de alguma forma.

Hausenblas e Downs publicaram uma pesquisa em 2002 explicando que a dependência ao exercício assemelha-se à dependência a substâncias químicas e que sua avaliação deveria ser feita considerando os sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos, conforme apresentados abaixo. Vale ressaltar que esses sintomas referem-se ao exercício praticado com o único fim de se exercitar e por isso o diagnóstico de TA deve ser excluído.

Em consonância com os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) para dependência de substâncias, a dependência ao exercício leva ao comprometimento ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por três ou mais dos seguintes sintomas*:


Tolerância: há uma necessidade de aumentar a quantidade de exercício para alcançar o efeito desejado;

Abstinência: manifestado tanto pelos sintomas de abstinência característicos pela falta do exercício (por exemplo, ansiedade, fadiga) quanto pela mesma quantidade de exercício praticado para aliviar ou evitar os sintomas de abstinência;

Efeito de intenção: quando se pratica maiores quantidades de exercícios ou por um período maior do que se pretendia;

Falta de controle: um desejo persistente ou esforço malsucedido para diminuir ou controlar o exercício;

Tempo: uma boa parte do tempo é dedicado a atividades que envolve atividades físicas e/ou exercícios (por exemplo, férias com viagens de aventura);

Redução de outras atividades: atividades sociais, ocupacionais ou recreacionais são substituídas ou reduzidas por causa do compromisso com o exercício;

Continuidade: o exercício é praticado independente de dores, problemas físicos ou psicológicos, ou até dor/lesão causadas pelo próprio exercício (por exemplo, continuar correndo mesmo lesionado).

*Traduzido do original feito por Hausenblas & Downs (2002b).

Praticar uma atividade física prazerosa para conquistar saúde melhorando os componentes da aptidão física, ter uma boa postura, saúde muscular e óssea para viver sem dores ao longo da vida, ser capaz de subir, descer, carregar coisas, prolongando a autonomia física, além de prevenir doenças decorrentes do sedentarismo deveriam ser os principais objetivos para a busca de uma atividade física.
Fique atento caso a preocupação excessiva com o corpo seja seu único objetivo ao praticar exercícios. Nossa saúde é muito valiosa e merece cuidado especial para que vivamos bons longos anos cheios de bem-estar e alegria.

Para aprofundar:

Alvarenga M, Scagliusi FB, Philippi ST (Org.).  Nutrição e Transtornos alimentares: avaliação e tratamento. Barueri: Manole, 2010.

Hausenblas HA, Dows DS. How much is too much? The development and validation of the exercise dependence scale. Psychol Health. 2002;17:387-404.

Rosa DA, Mello MT, Souza-Formigoni MLO. Dependência da prática de exercícios físicos: estudo com maratonistas brasileiros. Rev Bras Med Esporte. 2003;9:9-14.

Teixeira PC, Costa RF, Matsudo SMM, Cordás TA. A prática de exercícios físicos em pacientes com transtornos alimentares. Rev Psiq Clin 2009;36:145-52.

Autor Redação Genta

Equipe de Redação do Genta

Acompanhe todas as novidades do Genta e ainda ganhe gratuítamente dicas de saúde semanalmente por e-mail

Assinar agora

2017 ® Genta - Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares