Por Marcela Nunes Paulino de Carvalho, psicóloga
Os dados oficiais apontam que a atual pandemia de COVID-19, a qual vivemos, chegou no Brasil em fevereiro/2020. Hoje, totalizamos exatos 75 dias do começo de tempos complicados. Assim, vemo-nos privados do contato físico de beijos, abraços, carinhos e olhares; algo que causa forte impacto em nossa vida psíquica. Este período da nossa história parece fazer suspender o tempo, transformando tudo num grande hiato em nossas vidas.
A percepção de tempo e o seu valor subjetivo nos orienta e nos dá alicerce ao longo da vida. Portanto, o tempo, com toda a sua flexibilidade, atualmente se faz incerto, o que provoca diversos resultados, como a ansiedade e a sensação de descontrole. Estar destacado e separado da nossa rotina previsível, nos retira, num primeiro momento, das referências que nos orienta diariamente. Por isso, buscar as nossas redes de apoio, instaurar novos hábitos e criar novas atividades são de suma importância.
Ultimamente, neste período de confinamento, tenho escutado com frequência sobre os sentimentos de solidão e de isolamento em diversos contextos, desde aqueles que estão próximos de mim até as pessoas mais distantes, com as quais mantenho contato social virtual. A impotência, a imprevisibilidade e a instabilidade do momento tendem a levar as pessoas ao desespero ou até à percepção de abandono e ressentimento. Portanto, o isolamento físico trouxe as mais diversas formas de expressão de emoções frente as incertezas de um tempo que estagnou: medos, ansiedades, angústias.
Neste tempo congelado, os dias parecem não ter começo, meio ou fim. Tudo se junta numa grande continuidade, sem relevo e sem mudanças. Num estado morno e pouco dinâmico, sem pausa ou intervalos. A não separação dos dias causa tédio, temor, agitação e aflições. Essa é a percepção atual de tempo que observo, escuto e vivencio no dia a dia dessa nova realidade que recaiu sobre nós.
Os relatos desse esvaziamento presente fazem névoa para o futuro e parece apagar nosso passado mais recente, quando a circulação, o agito e a correria era o nosso cotidiano e a nossa rotina. O desmonte daquilo que se fazia estrutura no “nosso ontem” parece ter deixado pontas soltas e todos nós nos vimos forçados a nos adaptar a novos costumes. Entretanto, a teia psíquica que tomamos como suporte para nos amparar, para muitos, viu-se fragilizada, causando grandes dores, agonias, apertos, desconfortos, desalentos e desesperos.
Nas atuais condições, devemos recorrer aos vínculos que estabelecemos com os outros, outros estes que têm um estatuto simbólico de amparo e apoio: familiares, amigos, colegas, terapeutas e profissionais da saúde, parceiros amorosos, companheiros de trabalho, enfim, todos aqueles com quem fazemos laço social e até o próprio coletivo numa escala maior. Atividades que também ganham o caráter de suporte psíquico, ou seja, desenham bordas que permitem a expressão do que sentimos e do que pensamos, são de extrema importância.
Em suma, o futuro próximo parece um desalento, mas, como o agora, também será passado. Portanto, o futuro pode ser cheio de esperanças e de possibilidades de histórias que abram caminhos novos e mais criativos. O não saber do momento atual, embora muito angustiante, também permite a construção de um futuro, permite perspectivas, em especial, a perspectiva de que isso acabará. Isso contribui para um mínimo anteparo simbólico, do qual necessitamos para seguirmos adiante.
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