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Como é comer nos tempos de hoje


Por Marcela Kotait, nutricionista 


Quando escolhi fazer faculdade Nutrição, não imaginava como seria difícil minha vida profissional. Não digo isso pelo mercado de trabalho, ou pelas oportunidades que viriam, mas única e exclusivamente pelo entendimento que as pessoas têm do que faço.

Enquanto estudava, confesso que também não via no meu futuro um poder tão grande e transformador como entendo ter hoje, mas ainda assim acreditava que o que estudava era mais que fazer cálculos de nutrientes e calorias. Infelizmente as pessoas não.

Hoje vejo no meu trabalho e minha linha de atuação um grande desafio diário. Explicar que não existe o menor problema em comer pão parece um desafio. Discordar do cardume de opiniões rasas sobre a Ciência da Nutrição, que insistem em demonizar os alimentos e culpar as pessoas por comer é um exercício que faço diariamente, de segunda a segunda.

Hoje, profissionais e leigos se sentem no direito de informar (ou mal informar) as pessoas sobre alimentação sem pensar nas consequências que isso pode trazer. Some isso ao poder das redes sociais, onde qualquer um pode publicar o que bem desejar sem nenhum tipo de controle.

Ouvi a pouco no radio que se você é mãe e depois de um dia lotado de trabalho decidir levar seu filho para comer algo na rua, tipo fast food, isso se transforma imediatamente em uma má mãe. A moderação parece ter saído de moda. Claro que não estou em momento algum reforçando que devemos alimentar nossos filhos com sanduíche e salgadinho, mas eventualmente isso deve acontecer e as mães não deveriam se envergonhar disso.

Comer todos os alimentos, de alface a chocolate, manteiga a uva, bolo de fubá a atum, faz parte de uma alimentação normal e saudável. A grande preocupação que assola as pessoas na hora das refeições só colabora que para que a falta de conhecimento e crenças disfuncionais sejam perpetuadas. Pensar o tempo todo no que se deve/pode/precisa comer faz com que as pessoas se afastem da maneira intuitiva que deveriam comer. Julgar as pessoas pelo que comem acaba por refletir também em julgar a forma física delas, muito falado aqui nos artigos do site.

Essa maneira de se encarar a alimentação, ou de se ter esse “estilo de vida” – assim chamado por muitas pessoas que não percebem que estão adoecendo na busca por uma alimentação perfeita e saudável – impacta diretamente na maneira de nos relacionarmos com a comida e com o nutricionista. Somos vistos como policiais da comida alheia, fiscalizadores de pratos e estraga prazeres. Entendo porem, que na maioria das vezes, o nutricionista colabora para que essa maneira de conviver com a comida continue. E é isso que me entristece quando preciso me apresentar como uma.

Ser nutricionista para mim é justamente lutar contra esses infinitos modismos alimentares e essa insistente mania que as pessoas têm de reduzir comida a nutrientes. Não comemos nutriente, comemos comida. Não nos servimos de proteínas e carboidratos e sim, de arroz e carne. Não podemos deixar de viver plenamente por causa de inseguranças e medos na hora de comer. Não podemos acreditar em qualquer pessoa que se diz entendido no assunto sem verdadeiramente pesquisar outras fontes e pesquisar sobre a pessoa que te informa. É urgente travarmos uma luta contra a maneira atual de comer.

Embora eu entenda que minha profissão é nova, sei também que o numero de nutricionistas que se formam a cada semestre é enorme, e infelizmente muitos deles serão papagaios e repetirão incansavelmente evidencias rasas sobre brechas bioquímicas na infeliz e ineficaz luta contra o pão ou o arroz.

Entender que somos auxiliadores de novos processos e reforçadores de atitudes alimentares saudáveis fará com que eu não precise continuar gritando aos sete ventos que ser nutricionista é ser mais que prescritor de castigos.



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