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Senta que lá vem história


Por Manuela Capezzuto, nutricionista

Quando um colega nutricionista conhece a nutrição comportamental e se encanta, comumente se pergunta, com pesar: “Mas como eu não conheci essa abordagem antes?”. Um bom jeito de entender porque as coisas são como são é olhar para o passado – o belo clichê da retrospectiva, que dá pistas valiosas de como viemos parar aqui. Assim, olhemos para o caminho tortuoso da ciência da nutrição para tentar responder à pergunta acima.

Aqui no Brasil o primeiro curso de nutrição teve sua emergência apenas no final da década de 30 com a criação do Instituto de Hygiene, da Faculdade de Saúde Pública da USP. Como o nome bem diz, a ciência passou a perceber que boas práticas higiênico-sanitárias talvez diminuíssem a incidência de algumas doenças. Um rápido exemplo é a diarreia infecciosa. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1982, 5 milhões de crianças no mundo morreram por causa de tal condição, enquanto, em 2011, esse número caiu para 1,5 milhão.

Além das péssimas condições higiênico-sanitárias, o Brasil era um país faminto, prato cheio para os nutricionistas de plantão, que lutavam para tentar barrar a desnutrição, melhorar o acesso e a distribuição de alimentos em quantidade e qualidade suficientes. Com o crescimento econômico, a demanda era ainda a de alimentar bem mulheres e homens trabalhadores. As políticas públicas desse período iam de encontro às reflexões internacionais do pós-guerra.

Mais adiante, observa-se que a ciência da nutrição se debruçou sobre os aspectos sociais da fome, do processo saúde-doença, desigualdade e segurança alimentar, ocupando papel de destaque na agenda pública. Houve um boom de políticas sociais relacionadas à alimentação.

Como não só de pão se vive a humanidade, estudiosos da comida também começaram a incluir a antropologia, ciências sociais e gastronomia nesse balaio, um espaço multidisciplinar. Configurou-se, assim, uma vertente cultural da ciência da alimentação.

Hoje, depois da famosa transição nutricional brasileira, fenômeno em que as doenças relacionadas a carências nutricionais foram substituídas, em sua maioria, por condições relacionadas aos excessos, o mundo da nutrição se diz capacitado a mesclar aspectos biológicos, econômicos, sociais e culturais da comida. Mas o que falta? Qual caixinha do ser humano ainda não é bem explorada?

Esse trajeto – era biológica, econômica, social e cultural da alimentação – foi proposto pelo autor Henrique Carneiro em seu livro “Comida e Sociedade: uma história da alimentação” e, hoje, ouso palpitar termos entrado na era mental da alimentação.

Aqui vale uma pequena digressão: participei de um bonito evento no início do ano cujo foco era debater os problemas, desafios e soluções da alimentação e sustentabilidade, formado por chefs, produtores rurais, ambientalistas, jornalistas, nutricionistas e uma longa lista de profissões que de alguma forma eram inundadas pelo tema “comida”. Conversando com uma roteirista de cinema sobre os prazeres da boa comida e a riqueza do cozinhar junto, cometi o pequeno deslize de lhe contar minha profissão. A pessoa em questão arregalou os olhos e começou a me detalhar um protocolo detox de 21 dias que havia feito há pouco, esperando ansiosa pela minha aprovação. Borocoxô, respondi apenas que a conversa anterior me era mais cara.

No final das contas o ponto é o seguinte: o berço da nutrição é biológico. É de uma época em que nem o básico em termos energéticos e proteicos era suprido. De uma época em que garantir que crianças ultrapassassem cinco anos e trabalhadores pudessem fazer bem sua labuta eram as grandes prioridades.

Vale dizer que o grande objetivo desse texto é o de acalmar as aflições de nutricionistas que em nenhum momento tiveram em sua formação algum olhar mais cuidadoso para a saúde mental de seus pacientes e que, agora, provavelmente sentem essa falta na prática clínica. Se, por outro lado, se sentiram instigados, fica aqui o convite para se aventurarem nesse novo mundo, que a meu ver, vai se configurando como a próxima grande onda de nossa era.

REFERÊNCIAS:

 Vasconcelos, F. D. A. G. D., & Batista Filho, M. (2011). História do campo da Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva16, 81-90.

Carneiro, Henrique. Comida e sociedade: uma história da alimentação. Elsevier Brasil, 2017.

Guia Prático de Atualização do Departamento Científico de Gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria – SPB. 2017



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